SCIENCE NEWS Nº26 | JULHO | 2009
MEDICINA INTEGRADA E FUNCIONAL
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Homocisteína 

-  causa ou marcador de risco cardiovascular?

 Suplementação com ácido fólico, vitamina B6 e B12 reduzem níveis de homocisteína mas não protegem da ocorrência de eventos cardiovasculares.

 Para o processo da aterosclerose podem contribuir múltiplos factores, incluindo: resistência à insulina (1), deficiência de ácido fólico e excesso de homocisteina (2) , infecções ocultas (3), toxicidade a metais pesados (4), dislipidemias, stress e outros factores que promovem um estado pró-inflamatório (5).

 Já em 1969, McCully propôs que a homocisteína poderia ser uma causa de aterosclerose com base nos estudo das placas ateroscleróticas de jovens altos níveis de homocisteína. A deficiência de vitaminas B6, B12 e ácido fólico leva a uma aumento dos níveis de homocisteína. Nos países desenvolvidos, o excesso de metionina na alimentação aliado à remoção parcial de vitaminas no processamento dos alimentos, promove este excesso de homocisteína no sangue. (6)

 Nos ultimos 25 anos, vários estudos epidemiológicos permitiram relacionar o aumento de homocisteína com risco aumentado de aterotrombose. Por aumento de 10% de homocisteína, o risco de enfarto do coração triplica! Ao contrário, uma redução em 25% dos níveis desta molécula conduz a menos 11% de risco de enfarte cardíaco e a menos 19% do risco de trombose cerebral. Sabe-se que por cada aumento em 5micromoles/L de homocisteína no sangue, o risco de recorrência de um evento cardiovascular aumenta 16% (6). Entretanto, experiências laboratoriais demonstraram que a homocisteína é uma molécula aterogénica (7, 8) através de vários mecanismos celulares.

 Três ensaios clínicos de larga escala tentaram perceber se uma diminuição dos níveis de homocisteína através da suplementação com ácido fólico + vitaminas B6/B12, poderia proteger da ocorrência de enfartes do coração ou de acidentes vasculares cerebrais. Contrariamente ao expectável, apesar da diminuição dos níveis de homocisteína, não houve uma redução significativa do risco de tais eventos vasculares. (6)

 Várias hipoteses explicativas foram propostas na tentativa de perceber estes resultados inesperados. Uma hipotese é a de que o ácido fólico poderá por si promover a proliferação da placa aterosclerótica, através da sintese de timidina.

 Segundo, o ácido fólico e vitamina B12 convertem a homocisteína em metionina, o que por sua vez, leva a um incremento do potencial de metilação da molécula do ADN. Por sua vez, esta modificação do ADN contribuirá para produzir a placa de ateroma. Terceiro, a metilação aumentada pode converter o aminoácido L-arginina em dimetilarginina, um produto que gera disfunção dos vasos sanguíneos. (6)

 Ou seja, apesar da redução dos níveis de homocisteína, a suplementação com ácido fólico e vitaminas B12 e B6, pode gerar efeitos favorecedores de aterosclerose que por si “abafam” o efeito teoricamente anti-aterosclerótico associado ao controlo da homocisteína.

 Especula-se que a estratégia poderá passar por formas de promover a conversão de homocisteína em cisteína no figado ou de favorecer a eliminação a homocisteína pela via  urinária (6).

 Em conclusão podemos dizer que o controle dos valores da homocisteina, como factor isolado, não se mostrou preventivo da doença cardio-vascular, mas talvez devamos pensar na homocisteina como um indicador laboratorial de uma disfunção metabólica mais abrangente, o deficit em grupos metil, com implicações muito mais vastas e a requerer uma opção terapêutica que irá além da suplementação com as referidas vitaminas do grupo B.

Bibliografia:

(1) Norhammar A. Glucose metabolism in patients with acute myocardial infarction and no previous diagnosis of diabetes mellitus: a prospective study. Lancet. 2002;359:2140-44
(2) McCully K. Homocysteine, folate, vitamin B6 and cardiovascular disease. JAMA. 2002;288:2724-31
(3) Murat V. Chlamydia pneumonia as an emerging risk factor in cardiovascular disease. JAMA. 2002;288:2724-31
(4) Gullar L. Mercury, fish oils and the risk of myocardial infarction. N Engl J Med. 2002;347:1747-54
(5) Yoshizawa K. Mercury and the risk of coronary heart disease. N Engl J Med. 2002;347:1755-60
(6) Loscalzo, J. Homocysteine trials – clear outcomes for complex reasons. N Engl J Med 2006;354:15
(7) Castro R, Rivera J, Blom HJ, Jacobs C, Tavares de Almeida I. Homocysteine metabolism, hyperhomocysteinemia and vascular disease: an overview. J Inherit Metab Dis 2006; 29: 3–20.
(8) Lentz SR. Mechanisms of homocysteine-induced atherothrombosis. J Thromb Haemost 2005; 3:
1646–1654.

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