SCIENCE NEWS Nº23 | ABRIL | 2009
MEDICINA INTEGRADA E FUNCIONAL
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A enfermagem Pós Moderna

- segundo Jean Watson

 O paradigma dos sistemas de saúde em geral e da Enfermagem em particular estão em mudança.

 Apesar dos grandes avanços da medicina moderna e da tecnologia desenvolvida ao seu serviço, observa-se o surgimento de uma consciência de que algo vital está a ser esquecido. De acordo com Jean Watson, é como se uma parte importante do nosso ser permanecesse no vazio e cuja lacuna não estivesse a ser colmatada com os seus progressos e avanços.

 Há cerca de 15 anos já Watson identificava e descrevia vários factores significativos da transformação paradigmática dos sistemas, das ciências e das profissões da saúde. Os diversos estudos que realizou, quer com os aborígenes na Austrália, com os índios no Brasil ou com diversos povos e civilizações em vários continentes, forneceram-lhe contributos importantes para pensar e analisar a Enfermagem como uma disciplina em absoluta expansão e em integração no paradigma emergente da nova forma de entender e cuidar o ser humano.

 Pensar a nossa forma de estar no mundo vai-se aproximando cada vez mais de uma perspectiva ontológica, onde só SER assume cada vez mais importância e, a não ser que a enfermagem e as outras áreas da saúde tomem verdadeiramente em consideração a forma como nos situamos e relacionamos com o mundo e considerem todos os factores de vida e morte do ser humano, elas mesmas permanecerão incompletas.

 DO DETERMINISMO AO PÓS MODERNISMO

 Na revisão da literatura científica de Enfermagem, Watson identificou, pelo menos 3 paradigmas que afectaram a evolução e o desenvolvimento da maturidade da disciplina e que correspondem às categorizações encontradas na literatura, para as diferentes Eras da Ciência Médica.

 A Era I corresponde ao paradigma I da Enfermagem e aparece associada ao mecanicismo, ao materialismo e ao determinismo, onde o foco da profissão se centra no corpo. As práticas de cuidados de saúde são dominadas pelo tratamento médico e a cura do corpo, numa visão do exterior para o interior. Os enfermeiros focam-se nas tarefas funcionais e no “fazer”. Esta abordagem, embora dominante na primeira metade do século XX, permanece vigorando até hoje em muitas instituições de saúde pelo mundo inteiro.

 A Era II originou uma evolução da medicina para a mente ou, mais concretamente para o cérebro. A partir de meados do séc. XX a formação em Enfermagem começa a ter em conta uma atitude mais centrada no doente e nas suas necessidades psicossomáticas. Assiste-se a um desenvolvimento da Enfermagem na área da psiquiatria e no final do século observa-se um aumento rápido da investigação de cariz qualitativo que a orienta para um paradigma da ciência humana, mais do que a ciência do corpo.

 No entanto, continua a observar-se que a prática profissional continua a centrar-se maioritariamente no paradigma I.

 As práticas das profissões de saúde da era moderna ocidental tornaram-se numa guerra contra a doença, contra o corpo, contra a mente e contra o espírito humano. Esta abordagem bélica e excessivamente racional do modelo moderno dos sistemas de saúde conduziu-o ao seu próprio limite e à necessidade de ele próprio se desconstruir para fazer renascer algo novo.

 A desconstrução sucessiva do modelo exausto da ciência moderna está a fazer emergir um novo paradigma, denominando Era ou Paradigma III, conotado com uma visão pós moderna, onde os princípios fundamentais assentam na ontologia, na ética e na consciência. A recuperação de sabedorias milenares das culturas orientais e o desenvolvimento da física quântica enquanto conceito da onda energética e dos sistemas vivos subatómicos, evoca um universo invisível desconhecido e remete-nos para a consciência de um universo em que tudo se encontra conectado e em que múltiplas possibilidades se encontram à espera de poderem ser encaminhadas para a nossa realidade visível.

 Poderíamos afirmar que, segundo os padrões orientais, o padrão emergente da nova ciência da saúde está a caminhar de uma visão Yang para uma visão Yin, onde a subtilidade, a subjectividade e a harmonia parecem querer emergir.

 Ser integrado neste novo saber requer uma significativa transformação interna e externa e o desenvolvimento de uma nova consciência do eu, do outro e do universo.

 A consciência pública que também está a emergir, exige um sistema de cuidados mais humanista, onde o eu, a alma e o espírito reclamam cada vez mais atenção.

 PRINCÍPIOS DO CUIDAR TRANSPESSOAL

 O cuidar transpessoal em Enfermagem insere-se, segundo Watson, num modelo quântico de cuidar, onde, no momento de cuidar, um campo energético é formado a partir da interferência das ondas emitidas por cada pessoa, pela energia da sua consciência e da sua intencionalidade.

 Este fenómeno energético não físico conduz-nos a novas formas de pensar, escrever e investigar a enfermagem e de interagir com aqueles a quem cuidamos e com quem nos conectamos.

 Os diversos fundamentos e princípios descritos por Watson como essenciais para o cuidar transpessoal relacionam-se intimamente com as competências a desenvolver pelos Enfermeiros. Assim, é essencial que o Enfermeiro construa a sua formação, a sua pesquisa e a sua prática a partir de:

 • Uma visão expandida da Pessoa como Ser Humano plenamente corporizado com um espírito e uma consciência transpessoais – na abordagem com o doente o Enfermeiro deve, antes de tudo, adquirir a consciência que se encontra perante um ser igual a si, com quem partilha o mesmo campo energético e a mesma consciência universal (ambos para um fim comum). Por estas razões é importante que todos aprendamos a aceitar o outro de forma a sermos capazes de assumir o compromisso de ser co-responsáveis nesta relação de mutualidade e confiança.

 • Energia e Frequência – existe comprovação científica de que a energia da consciência possui diversas frequências de acordo com os pensamentos que lhe estão associados (o melhor exemplo vem da experiência dos cristais de água de Marasu Emoto). A forma mais eficaz de conhecer esses pensamentos é tomar consciência dos sentimentos em cada momento. Pensamentos negativos dão origem a sentimentos desagradáveis, cuja energia é de baixa frequência. Por outro lado, pensamentos positivos promovem sentimentos agradáveis ou de alta frequência. Do mesmo modo, os sistemas energéticos de baixa frequência retiram energia aos sistemas de alta frequência e, se não estivermos atentos às nossas emoções e sentimentos, a nossa energia pode ser significativamente diminuída por outra de frequência inferior. Nesta perspectiva o Enfermeiro é estimulado a manter pensamentos de alta frequência, tais como alegria, amor e perdão, entre outros, de modo a poder influenciar positivamente os de baixa frequência daqueles com quem partilha os momentos de cuidar. Pode também ensinar os outros a direccionarem a sua consciência para energias de alta frequência e a forma de elas poderem potenciar o processo de recuperação e cura.

 • Consciência e Intencionalidade – os momentos de cuidar transpessoal envolvem uma acção e uma escolha por parte dos seus intervenientes. Esta consciência deve ser desenvolvida, pelos Enfermeiros, de modo a poderem ser capazes de estar mentalmente presentes enquanto cuidam e ajudar a mudar o campo de frequências energéticas daqueles a quem cuidam.

 • Ajudar o doente a potenciar as suas capacidades de auto-cura – Watson refere as linhas orientadoras de Macrae (p199) para a prática do Enfermeiros, no que respeita à ajuda na consciencialização e na capacitação do doente para usar a sua força interior como meio de melhoria da sua situação e da sua recuperação. Deste modo, é crucial, numa visão do cuidar transpessoal, que o Enfermeiro ajude a tornar claro para o doente que ele possui ferramentas interiores que são determinantes para o sucesso da sua recuperação e adaptação; mostrar-lhe quais são as circunstâncias que o ajudam revelar as suas capacidades; por fim, que existem formas de criar as melhores circunstâncias e condições para que encontre o seu próprio estilo de vida.

 • Modalidade de cuidar-curar – Watson refere as várias modalidades de cuidar que podem ser incluídas nas actividades dos Enfermeiros, numa perspectiva da transpessoalidade:

  • Auditivas – o uso do som, da música e do silêncio nas actividades de cura e do bem-estar são tão antigos como a própria humanidade. Actualmente estas modalidades estão conectadas com a musicoterapia e o uso de sons ou de instrumentos específicos para activar ou desbloquear determinadas zonas do cérebro e da mente.
  • Visuais – Nightinhgale referiu a importância das artes visuais e da beleza como formas de harmonia. Hoje as modalidades visuais relacionam-se, entre outras, com a cromoterapia, a obervação de imagens de arte ou, mesmo a própria leitura.
  • Olfactivas – a versão mais comumente utilizada actualmente é a aromoterapia que se acredita ter a característica de modificar a consciência e introduzir maior conforto e equíbrio.
  • Tácteis – é uma modalidade fundamental para uma abordagem de curar-cuidar transpessoal. O toque foi recentemente denominado de terapêutico por constituir uma necessidade básica de sentir e cujos resultados se têm demonstrado efectivos na melhoria do conforto, da dor e do equilíbrio físico, psíquico e mental.
  • Gustativas – um dos focos das considerações pós modernas assenta na dieta, nos alimentos com as suas diversas texturas, aromas e aparências, bem como os seus benefícios, quan do a sua escolha é adequada. Para além disso, o próprio acto de comer, de saborear e receber os alimentos constituem importantes factores de cura e bem-estar, pelo que cada vez mais esta questão estáa ser levada em conta como modalidade de cuidar-curar.
  • Mentais-cognitivas – Nightingale previu a importância desse tipo de cuidados considerando, por exemplo, que contar uma história a uma criança internada podia ser eficaz como factor positivo da mente sobre o corpo. Hoje em dia são múltiplas as modalidades utilizadas no processo de cuidar-curar tais como as terapias cognitivas, os jogos e o uso do humor nos cuidados de Enfermagem. ?
  • Cinestésicas – largamente divulgadas e utilizadas nas civilizações orientais e mais recentemente introduzidas nas culturas ocidentais a dança, o tai chi, os campos de trabalho corporal, o trabalho de polaridades e o trabalho de Reiki são algumas das modalidades mais aplicadas e desenvolvidas terapias corporais.
  • Uso intencional da “consciência de cuidar” – Watson considera que estar consciente para o cuidado que se presta implica estar consciente do conceito de presença, que foi identificada por alguns autores de Enfermagem como: 

 Presença física – que envolve o contacto corpo a corpo

 Presença psicológica – que envolve a ligação mente a mente

 Presença terapêutica – que envolve a intencionalidade e concentração no cuidar e que pode ser designada por presença transpessoal.

 • Arquitectura do cuidar transpessoal – para Watson, como para Nightingale, o meio ambiente onde o doente está inserido constitui um espaço de cura que deve ser entendido como significativo factor de recuperação. Não dependendo propriamente dos Enfermeiros a sua construção, deve, no entanto, por eles ser tido em consideração, pois pode interferir seriamente na sua harmonia e bem-estar ou, mesmo, contribuir para pôr em causa a sua segurança. Questões como a redução do ruído, a qualidade do ar, o conforto térmico, a luz, as acomodações, as cores, as texturas, a privacidade e a comunicação ao serem entendidas como verdadeiros factores de cura, são-no também em termos de supervisão de Enfermagem.

 Poderíamos afirmar, em jeito de nota final, que a Enfermagem, de acordo com Watson, constitui um processo que ajuda as pessoas a atingirem um grau mais elevado de harmonia e bem-estar da mente, do corpo e do espírito. Por outras palavras, pretende-se que o Enfermeiro ajude os outros a readquirirem a capacidade de obter a sua saúde ou, quando isso se torna impossível, a adquirir o máximo bem-estar durante a sua existência como seres no mundo.

Bibliografia:

1. Enfermagem: Ciência Humana e Cuidar, uma Teoria de Enfermagem - Lusociência, ED Técnicas e Científicas, Loures 2002, ISBN 972-8383-33-9

2. Enfermagem Pós Moderna e Futura - Lusociência, Ed Técnicas e Científicas, Loures 2002, ISBN 972 -8383-37-1

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