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SCIENCE NEWS Nº21 | MARÇO | 2009 |
| MEDICINA INTEGRADA E FUNCIONAL | |
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Sobrecarga de estrogénios e insuficiência de testosterona no homem – um desequilíbrio ignorado
Com o envelhecimento, o nível de testosterona sofre uma queda gradual natural. Em oposição, podem encontrar-se níveis de estrogénios anormalmente elevados no homem a partir da meia-idade. O que acontece é que uma boa parte da já se si baixa produção de testosterona é convertida em estrogénio, criando um padrão hormonal patológico em que os estrogénios predominam sobre a testosterona (1).
Exemplos de manifestações num homem com este desequilíbrio hormonal são o aumento das glandulas mamárias, o aumento da “barriguinha”, uma fadiga anormal, perda de massa muscular e desequilíbrios emocionais. Muitos destes sintomas também se correlacionam com deficiência de testosterona (2).
O excesso de estrogénios está intimamente relacionado com a acumulação de gordura abdominal, muito na dependência de má alimentação e da falta de actividade física. Podemos imaginar a gordura abdominal como uma enorme glândula libertando quantidades importantes de estradiol (um tipo de estrogénio) a partir da conversão bioquímica da testosterona.
Mas será esta tendência para um estado de preponderância de estrogénio versus testosterona prejudicial durante o envelhecimento? Evidências:
1) A taxa de mortalidade por AVC no nosso país é de cerca de 200/100 000 habitantes. É das mais elevadas na EU e condiciona em 50% dos sobreviventes a limitações funcionais (3). Diversos estudos publicados apontam para um aumento de risco cardiovascular associado a níveis anormalmente elevados de estrogénios no homem. Excesso de estrogénios promove a formação de coágulos no sangue (4). Um estudo de 2007 concluiu que homens com níveis elevados de estradiol (um potente estrogénio) apresentavam um risco aumentado de 2,2 vezes de sofrer um AVC quando os valores de estradiol ultrapassavam os 34,1 pg/mL, em comparação com aqueles em que este níveis eram inferiores (5).
2) Outro estudo avaliou a relação entre os níveis de estrogénios e a espessura da parede das artérias do pescoço, uma forma de avaliação (por ecografia) que tem sido usada como marcador de risco aterosclerótico. Os resultados concluiram que o estradiol é um predictor da progressão da espessura da parede destas artérias: quanto maior o nível de estrogénio, maior a espessura da artéria, logo, maior o risco cardiovascular (6).
3) Um estudo realizado em doentes vítimas de enfarte cardíaco, revelou que este grupo de doentes apresentava níveis significativamente elevados de estradiol e, por outro lado, níveis diminuidos de testosterona (7). Outro estudo, com angiografia coronária, observou uma correlação entre aterosclerose nestas artérias do coração e níveis aumentados de estrona (outro potente estrogénio) e baixos níveis de testosterona na presença de elevados níveis de estradiol: “baixos níveis de testosterona total e da razão testoserona/estradiol e altos niveis de estrona em homens com doença das artérias coronárias aparecem em conjunto com síndrome metabólico e podem estar na patogénese da aterosclerose coronária” (8). Este estudo foi corroborado por outro, um ano mais tarde, que sugeriu que o estradiol possa ter um papel no desenvolvimento de placas aterogénicas no homem com doença das coronárias (9). Verificou-se ainda em homens admitidos no hospital por enfartes cardíacos a presença de níveis elevados de estradiol e níveis baixos de testosterona: quando comparado com o grupo controlo, os níveis de estrogénios eram 180% superiores, enquanto os níveis de testosterona eram cerca de 3 vezes menos (10, 11).
4) Também na doença arterial periférica (em que os pacientes sofrem de claudicação com a marcha), existe uma relação entre niveis baixos de testosterona e níveis elevados de estradiol (12). Nesta doença, a estratégia médica habitual centra-se no controlo, muitaz vezes difícil, dos habituais factores de risco cardiovascular e na prescrição de certos fármacos com sucesso limitado. Baseado nestas evidências de desregulação hormonal, a prescrição de alguns desses fármacos poderia eventualmente ser dispensada, se se corrigisse a a deficiência de testosterona e o excesso de estrogénio nestes pacientes.
5) Em homens com artrite reumatóide também foi verificada uma elevação de níveis de estradiol e dehidroepiandrostenediona (13), indo de encontro a estudos que mostram uma elevação de proteína C-reactiva (um marcador de inflamação sistémica e e um factor de risco independente de doença das coronarias) associada a altos níveis de estrogénios (14).
6) Relativamente ao cancro da próstata, a literatura sugere que níveis elevados de estrogénios podem constituir um factor iniciador deste cancro, embora mais tarde possam ter um papel de supressão, temporária, desse mesmo cancro. Estatisticamente, não se encontrou associação entre níveis elevados de estradiol e cancro da prostata (15), mas é possível que isso se deva ao facto de muitos doentes falecerem antes por outras causas. Na verdade, existem dados que sugerem que já durante o 2 e 3º trimetre de gestação, a exposição a níveis elevados de estrogénio geram lesões no ADN que podem provocar lesões na prostata que só se venham a manifestar 80 anos mais tarde (16-19). A este propósito, a nutrição e o estilo de vida causam um enorme impacto na probabilidade de desenvolver cancro da próstata mesmo que o sujeito tenha uma grande predisposição genética. De facto, o consumo de vegetais crucíferos como os brócolos, couves-flor, abóbora, couves de Bruxela, alimentos com soja ricos em isoflavonas, convertem metabolitos perigosos do estrogénio (16-alfa-hidroxiestrona) em alimentos seguros (2-hidroxiestrona) que podem proteger do cancro próstata (20-24). Existem também suplementos com estes constituintes, tais como indole-3-carbinol e sulforafano, e genisteina e daidzeina (25-- 28).
7) Outros estudos suportam a hipótese de um papel dos estrogénios na patogénese da hiperplasia benigna prostática (29).
Os níveis de estradiol no homem em envelhecimento deve situar-se entre 20 a 30 pg/mL. Níveis demasiado baixos triplicam o risco de osteoporose (30), e niveis muito elevados, aumentam o risco de ataque cardíaco e de incidência de AVC. Niveis baixos de estrogenio e testosterona aumentam o risco de fracturas da anca em cerca de 6.5 vezes. Como se controlam os níveis de estrogénios e testosterona? - Redução da gordura abdominal através de cuidados alimentares e de exercício físico. - Nutrientes na dieta inibidores da enzima aromatase (responsável pela conversão da testosterona em estradiol).
- Se o adequado balanço hormonal não for alcançado com estas medidas, pode ser necessário recorrer a medicamentos com testosterona, ou fármacos (em baixa dosagem) inibidores da referida aromatase. A manutenção do nível adequado de testosterona e da relação testosterona / estrogénios é, pois, um factor de grande importância na prevenção cardio-vascular no homem. Bibliografia
1. Vermeulen A, et al. Estradiol in eldery men. Aging Male. 2002. Jun;5(2):98-102. |
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