SCIENCE NEWS Nº2 | DEZEMBRO | 2007
MEDICINA INTEGRADA E FUNCIONAL
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Amálgamas dentárias

- as provas da toxicidade do mercúrio 

 As amálgamas dentárias são utilizadas há aproximadamente 170 anos. A sua utilização levantou polémica, desde cedo, devido aos potenciais efeitos laterais inerentes à elevada concentração de mercúrio (50%) utilizada. Recentemente comprovou-se a libertação continua de pequenas quantidades de mercúrio das amálgamas dentárias, o que fez ressurgir a discussão e acelerou a pesquisa científica nesta área.

 As amálgamas dentárias são a principal fonte de mercúrio na população geral (1, 2) e os níveis deste metal pesado encontrados no cérebro, sangue e urina aumentam proporcionalmente ao número de amálgamas presentes na cavidade oral (1).

 Na última década, demonstrou-se que o mercúrio das amálgamas dentárias é libertado continuamente sob a forma de vapor, sendo posteriormente inalado, absorvido pelos tecidos do organismo, oxidado a mercúrio iónico e, finalmente, ligado covalentemente às proteínas celulares (2). Mas não é só através desta via que o absorvemos. O mercúrio libertado continuamente das amálgamas pode difundir-se directamente para o sangue circulante através da polpa dentária ou gengiva e através da ingestão do mercúrio presente na saliva (3). Estima-se que o uptake sistémico de mercúrio das amálgamas dentárias seja, em média, de 12 microgramas por dia (4).

 A citotoxicidade do mercúrio das amálgamas dentárias pode ser até 4 vezes superior à citotoxicidade dos monómeros utilizados nos materiais de restauração dentária (3).

 O mercúrio foi identificado como factor de risco para doenças cardiovasculares no homem (5). De facto, estudos recentes revelam que este modula a actividade da fosfolipase D (enzima com papel importante nas funções da barreira celular endotelial), resultando em disfunção endotelial.

 O mercúrio é já reconhecido como um neurotóxico; no entanto, estudos recentes em modelos animais apontam para que seja também um imunotóxico, actuando como co-factor na doença auto-imune, aumentando o risco e gravidade da doença clínica, na presença de outros eventos despoletadores, quer genéticos quer adquiridos (6). Assim, os mecanismos imunes podem ter também um papel importante no desenvolvimento de lesões cerebrais em doentes com amálgamas dentárias (7).

 O impacto na saúde da substituição de amálgamas dentárias em pacientes com doenças auto-imunes foi examinado, num estudo com 35 pacientes. Setenta e um por cento apresentou melhoria clínica, tendo ocorrido uma diminuição da reactividade linfocitária in vitro no teste MELISA. A taxa de melhoria mais elevada observou-se em doentes com Esclerose Múltipla (8).

 A sensibilização ao mercúrio é também uma causa importante de lesões orais liquenóides de contacto (9), podendo estas lesões representar uma reacção de hipersensibilidade de tipo retardado, sendo a via trans-epitelial a porta de entrada para os haptenos metálicos libertados dos materiais de restauro dentário (10). Os doentes com liquén plano oral têm níveis superiores de reactividade linfocitária a mercúrio inorgânico, quando comparados com grupos controlo (11).

 Dado que a libertação de iões metálicos dos materiais de restauro dentário (em doentes com intolerância a metais pesados, diagnosticada pelo teste MELISA) pode alterar a resposta imune, podendo levar, inclusive, à produção de autoanticorpos, a presença destes iões metálicos, em doentes susceptíveis, pode ser um factor de risco para a infertilidade (12).

 Estudos baseados em dados de avaliação psicológica sugerem que as amálgamas de mercúrio podem ser um factor etiológico na depressão, ansiedade e agressividade mal controlada (13). Num estudo com 465 pacientes diagnosticados com Toxicidade Crónica por Mercúrio, 32,3% apresentavam fadiga grave, 88,8% perda de memória e 27,5% depressão. A remoção das amálgamas dentárias combinada com um tratamento adequado resultou numa redução significativa dos sintomas para níveis encontrados em indivíduos saudáveis (14).

 Recentemente, descobriu-se que as crianças autistas apresentam uma maior exposição ao mercúrio durante a gestação devido a amálgamas dentárias maternas e vacinação com imunoglobulinas contendo timerosal (um aditivo presente nas vacinas), quando comparadas com crianças saudáveis. In vitro, os níveis de mercúrio e timerosal encontrados alguns dias após vacinação inibem em 50% a actividade da metionina sintetase, enzima com papel crucial nos passos bioquímicos necessários ao normal desenvolvimento cerebral, aos mecanismos de atenção e à produção de glutationa (agente antioxidativo e destoxificante importante). Subsequentemente, constatou-se que as crianças autistas têm níveis reduzidos de glutationa. Assim, o futuro do tratamento do autismo poderá passar por uma desintoxicação de mercúrio e suplementação dos metabolitos em deficiência (15).

 O risco de toxicidade fetal em grávidas com exposição ao mercúrio confirmou-se num estudo que revela que o mercúrio consegue atravessar a barreira placentar. Este estudo revela, ainda, que o risco de intoxicação do recém-nascido continua após o nascimento devido à presença deste metal pesado no leite materno (16).

BBibliografia

1. Godfrey ME, Wojcik DP et al. Apolipoprotein E genotyping as a potential biomarker for mercury neurotoxicity. J Alzheimers Dis. 2003 Jun;5(3):189-95.

2. Lorscheider FL, Vimy MJ et al. Mercury exposure from "silver" tooth fillings: emerging evidence questions a traditional dental paradigm. FASEB J. 1995 Apr;9(7):504-8.

3. Reichl FX, Simon S et al. Cytotoxicity of dental composite (co)monomers and the amalgam component Hg (2+) in humam gingival fibroblasts. Arch Toxicol. 2006 Feb 11;1-8.

4. Skare I, Engqvist A. Human exposure to mercury and silver released from dental amalgam restorations. Arch Environ Health. 1994 Sep,49:5,384-94.

5. Hagele TJ, Mazerick JN et al. Mercury activates vascular endothelial cell phospholipase D through thiols and oxidative stress. Int J Toxicol. 2007 Jan-Feb;26(1):57-69.

6. Silbergeld EK, Silva IA et al. Mercury and autoimmunity: implications for occupational and environmental health. Toxicol Appl Pharmacol. 2005 Sep 1;207(2 Suppl):282-92.

7. Tibbling L, Thoumas KA et al. Immunological and brain MRI changes in Patients with suspected metal intoxication. International Journal of Occupational Medicine and Toxicology, Vol 4, No 2, 1995.

8. Prochazkova J, sterzl I et al. The beneficial effect of amalgam replacement on health in patients with autoimmunity. Neuroendocrinology Letters 2004;25(3):211-218.

9. Koch P, Bahmer FA. Oral lesions and symptoms related to metals used in dental restorations: a clinical, allergological, and histologic study. J Am Acad Dermatol. 1999 Sep;41(3 Pt 1):422-30.

10. Lame J, Konttinen YT et al. Immunocompetent cells in amalgam-associated oral lichenoid contact lesions. J Oral Pathol Med. 1999 Mar;28(3):117-21.

11. Stejskal VD, Forsbeck M et al. Mercury-specific lymphocytes: an indication of mercury allergy in man. Journal of Clinical Immunology. 1996 Jan;16(1):31-40.

12. Poddzimek S, Prochazkova J et al. Sensitization to inorganic mercury could be a risk factor for infertility. Neuro Endocrinol Lett. 2005 Aug;26(4):227-82.

13. Siblerud RL, Motl J e tal. Psychometric evidence that mercury from silver dental fillings may be an etiological factor in depression, excessive anger, and anxiety. Psychol Rep 1994 Feb;74(1):68-80.

14. Wojcik DP, Godfrey ME et al. Mercury toxicity presenting as chronic fatigue, memory impairment and depression: diagnosis, treatment, susceptibility, and outcomes in a New Zealand general practice setting (1994-2006). Neuro Endocrinol Lett. 2006 Aug;27(4):415-23.

15. Mutter J, Naumann J et al. Mercury and autism: accelerating evidence? Neuro Endocrinol Lett. 2005 Oct;26(5):439-46.

16. Yang J, Jiang Z et al. Maternal-fetal transfer of metallic mercury via placenta and milk. Ann Clin Lab Sci. 1997 Mar-Apr;27(2):135-41.

 

 

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