SCIENCE NEWS Nº11 | OUTUBRO | 2008
MEDICINA INTEGRADA E FUNCIONAL
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Síndrome de hiperactividade e défice de atenção -                    que alternativas à Ritalina? 

 A mudança de hábitos alimentares, a suplementação nutricional (em especial com ácidos gordos ómega 3) e a exclusão de alimentos aos quais a criança apresenta intolerância alimentar, podem ter resultados impressionantes na melhoria dos sintomas do síndrome de hiperactividade e défice de atenção.

 Segundo o “The Guardian”, diferentes especialistas britânicos alertam sobre o uso da Ritalina (nome comercial do metilfenidato), um psicofármaco usado no tratamento de casos de perturbações de atenção como a hiperactividade em crianças e jovens. Segundo as novas linhas orientadoras ditadas pelo “National Institute for Health and Clinical Excellence (NICE)”, este medicamento não deve "em caso algum" ser prescrito a menores de cinco anos e apenas deve ser usado por crianças mais velhas, e mesmo aqui como último recurso. Ou seja, quando tiverem sido esgotadas todas as outras estratégias possíveis (1).

 Uma dessas estratégias pode mesmo passar pela terapêutica nutricional molecular, que tem vindo a apresentar resultados muito positivos na melhoria dos sintomas destas crianças, nomeadamente a prática de um esquema alimentar com um baixo teor de açucares e aditivos químicos, a suplementação nutricional (de vitaminas, minerais e ácidos gordos essenciais) e a exclusão de alimentos aos quais a criança apresenta intolerância. A melhor parte? Além dos resultados surpreendentes desta forma de abordagem terapêutica, é a ausência de efeitos secundários desagradáveis que também cativa os especialistas e pais.

 Eliminação do açúcar e dos alimentos refinados:

 O cérebro precisa de níveis estáveis de glicose (açúcar) no sangue, sendo extremamente sensível a subidas e descidas, em especial rápidas. O consumo de açúcar, de alimentos que o contenham ou mesmo de alimentos refinados (pão branco, arroz e massa refinada ou mesmo bolachas não doces) induz um aumento rápido dos níveis de glicemia pois estes são alimentos de elevado índice e carga glicémica (com um elevado teor de hidratos de carbono e uma velocidade de absorção rápida). Durante esta fase a criança sente-se relativamente bem, mas pouco depois esta subida é seguida de uma descida demasiado rápida destes mesmos níveis de açúcar, muitas vezes para níveis abaixo do normal. É nesta fase que aumenta a irritabilidade, a desconcentração e a ansiedade. Alguns estudos referem que as crianças hiperactivas tendem a comer mais açúcar ou cereais que as outras (2) e que uma grande parte pode apresentar uma diminuição da tolerância à glicose (3)

 Suplementação nutricional:

 As vitaminas e os minerais são essenciais para o correcto funcionamento de todos os sistemas enzimáticos do organismo. Sem níveis adequados, as diferentes máquinas do organismo não são capazes de desempenhar correctamente as suas funções e reacções químicas, nomeadamente o cérebro, um órgão extremamente sensível a deficiências nutricionais.

 Diferentes estudos publicados e a experiência de alguns centros clínicos de referencia afirmam que as crianças hiperactivas e com défice de atenção, apresentam diversos desequilíbrios nutricionais que, após identificados e corrigidos, podem aumentar drasticamente a sua atenção, capacidade de concentração, melhoria do seu comportamento e rendimento escolar, podendo transformar totalmente uma criança (4-6).

 Ácidos gordos essenciais, em especial os ómega 3:

 O cérebro é um órgão constituído em 60% por gordura, e desta, cerca de 1/3 são ácidos gordos essenciais (7). Os ácidos gordos ómega 3 assumem aqui um papel principal em especial um tipo de ómega 3 chamado ácido docosahexaenóico (DHA), com funções imprescindíveis na função cerebral (4, 8). São diversos os estudos que:

 -  apontam a deficiência de ácidos gordos essenciais como a causa dos sintomas associados ao síndrome de hiperactividade com défice de atenção (8, 6);

 -  referem que as crianças com síndrome de hiperactividade com défice de atenção apresentam níveis mais baixos de ácidos gordos essências comparativamente aos individuo considerados normais (6, 9-15) eventualmente por apresentarem maiores necessidades que as outras crianças, e não necessariamente por uma menor ingestão (14,16)

 -  que a maior incidência desta alteração no sexo masculino (4 em cada 5 crianças), se poderá dever à sua maior necessidade em ácidos gordos essenciais (17), o que facilitaria o aparecimento deste e de outros sinais de deficiência, muitas vezes também encontrados nestas crianças, como a sede excessiva, a pele seca, a presença de eczema ou asma (4, 10).

 - apontam melhorias significativas no comportamento e diminuição da hiperactividade em crianças após a suplementação com ómega 3, por vezes, em apenas 8 ou 12 semanas (5, 18-22).

 Vitaminas e minerais:

 É importante realçar que para que o organismo possa usar correctamente os ácidos gordos ómega 3, é necessário que tenha níveis adequados de determinadas vitaminas e minerais, nomeadamente as vitaminas B3, B6, C e biotina, e os minerais como o zinco e o magnésio (4, 23, 24). Alguns estudos apontam para a presença destas deficiências nas crianças hiperactivas, em especial de zinco e magnésio, e a vantagem da suplementação destes, e de outros minerais e vitaminas no aumento da sua capacidade de concentração e diminuição da hiperactividade (4, 6,8, 10, 15, 16, 21,24, 25).

 Intolerância alimentar:

 As intolerâncias alimentares são reacções imunológicas a alimentos consumidos, de intensidade menor que as vulgares alergias, mas porque não são normalmente detectadas ou valorizadas podem ter consequências bastante graves, nomeadamente a nível do comportamento.

 Estas intolerâncias alimentares, em especial a corantes artificiais (26-29) podem desempenhar um papel de extrema importância na etiologia desta patologia (6). Um estudo refere que uma criança com síndrome de hiperactividade e défice de atenção tem, aparentemente, uma probabilidade 7 vezes maior de apresentar intolerâncias alimentares, comparativamente a crianças não hiperactivas (30). As intolerâncias mais graves dizem respeito a corantes, aromas e outros aditivos alimentares (em especial o E330 ou acido cítrico; o glutamato monossódico (E621); ao tartarazina (E102 – corante amarelo) (31). Dos alimentos, os mais implicados são o trigo, os lacticínios, o cacau (chocolate), a levedura de pão, o tomate, as laranjas e os ovos (31).

 Diferentes estudos apontam para as inúmeras vantagens da remoção dos alimentos aos quais a criança é intolerante (8, 27-29, 32, 33). Um estudo após remoção dos alimentos e aditivos envolvidos, as crianças revelaram uma melhoria dos seus sintomas, mas quando esses foram reintroduzidos sem o conhecimento delas, o seu comportamento voltou a piorar (33).

Bibliografia

1) http://www.guardian.co.uk/society/2008/sep/24/children.health

2) R.J. Prinz, e tal., “Dietary correlates of Hyperactive Behaviour in Children”, Journal of Consulting and Clinical Psychology, vol 48, 1980, pp. 760-9

3) Langseth L, Dowd J. ”Glucose tolerance and hyperkinesis”.Food Cosmet Toxicol. 1978 Apr;16(2):129-33

4) Holford P, Burne J. “Food is better Medicine than Drugs. Your prescription for a drug-free health”. Piatkus Books Lda, London 2007

5) Joshi K, Lad S, Kale M, Patwardhan B, Mahadik SP, Patni B, Chaudhary A, Bhave S, Pandit A. “Supplementation with flax oil and vitamin C improves the outcome of Attention Deficit Hyperactivity Disorder (ADHD)”. Prostaglandins Leukot Essent Fatty Acids. 2006 Jan;74(1):17-21. Epub 2005 Nov 28.

6)Natalie Sinn. “Nutritional and dietary influences on attention deficit hyperactivity disorder.” Nutrition Reviews; Volume 66 Issue 10, Pages 558 – 568. Published Online: 25 Sep 2008

7) Holford P. “New Optimum Nutrition Bible.”Piatkus Books Lda, London 2007

8) Vancassel S, Blondeau C, Lallemand S, et al. ”Hyperactivity in the rat is associated with spontaneous low level of n-3 polyunsaturated fatty acids in the frontal cortex.” Behavioural Brain Research 2007; 180(2): doi:10.1016/j.bbr.2007.02.032.

9) Stevens LJ, Zentall SS, Deck JL, Abate ML, Watkins BA, Lipp SR, Burgess JR. “Essential fatty acid metabolism in boys with attention-deficit hyperactivity disorder”. Am J Clin Nutr. 1995 Oct;62(4):761-8.

10) Antalis CJ, Stevens LJ, Campbell M, Pazdro R, Ericson K, Burgess JR. “Omega-3 fatty acid status in attention-deficit/hyperactivity disorder”. Prostaglandins Leukot Essent Fatty Acids. 2006 Oct-Nov;75(4-5):299-308.

11) Colter AL, Cutler C, Meckling KA. Fatty acid status and behavioural symptoms of attention deficit hyperactivity disorder in adolescents: a case-control study. Nutr J. 2008 Feb 14;7:8

12) Stevens L, Zentall S, Deck J et al. “Essential fatty acid metabolism in boys with attention-deficit hyperactivity disorder”. Am J Clin Nut 1995; 62:761-768.

13) Chen JR, Hsu SF, Hsu CD, Hwang LH, Yang SC. “Dietary patterns and blood fatty acid composition in children with attention-deficit hyperactivity disorder in Taiwan”. J Nutr Biochem. 2004 Aug;15(8):467-72.

14) Burgess JR, Stevens L, Zhang W, Peck L. “Long-chain polyunsaturated fatty acids in children with attention-deficit hyperactivity disorder”. Am J Clin Nutr. 2000 Jan;71(1 Suppl):327S-30S

15) Stevens LJ, Zentall SS, Abate ML, Kuczek T, Burgess JR. “Omega-3 fatty acids in boys with behavior, learning, and health problems”. Physiol Behav. 1996 Apr-May;59(4-5):915-20

16) Ross BM, McKenzie I, Glen I, Bennett CP. “Increased levels of ethane, a non-invasive marker of n-3 fatty acid oxidation, in breath of children with attention deficit hyperactivity disorder”. Nutr Neurosci, 2003; 6(5): 277-281.

17) Colquhon, I, Bunday, S. “A lack of essential fats as a possible cause of hyperactivity in children”. Medical Hypotheses, vol 7, 1981, pp 673

18) Richardson AJ, Puri BK. “A randomized DB PC study of the effects of supplementation with highly unsaturated fatty acids on ADHD-related symptoms in children w/ specific learning difficulties”. Prog Neuropsychopharm Biol Psych, 2002 ;26(2):233-239.

19) Sorgi P, Hallowell E, Hutchins H, et al. “Effects of an open-label pilot study with high-dose EPA/DHA concentrates on plasma phospholipids and behavior in children with attention deficit hyperactivity disorder”. Nutr J. 2007; 6: 16; doi: 10.1186/1475-

20) Stevens L, Zhang W, Peck L, Kuczek T, Grevstad N, Mahon A, Zentall SS, Arnold LE, Burgess JR. “EFA supplementation in children with inattention, hyperactivity, and other disruptive behaviours”. Lipids. 2003 Oct;38(10):1007-21.

21) Sinn N, Bryan J. “Effect of supplementation with polyunsaturated fatty acids and micronutrients on learning and behavior problems associated with child ADHD”. J Dev Behav Pediatr. 2007 Apr;28(2):82-91

22) Richardson AJ, Montgomery P. “The Oxford-Durham study: a randomized, controlled trial of dietary supplementation with fatty acids in children with developmental coordination disorder”. Pediatrics. 2005 May;115(5):1360-6.

23) Penland, j et al:” Zinc affects cognition and psychosocial function in middle-school children” . Experimental biology meeting, San Diego 4, April 2005

24) Bhatnagar S, Taneja S. “Zinc and cognitive development”. Br J Nutr. 2001 May;85 Suppl 2:S139-45. Review.

25) Starobrat-Hermelin B, Kozielec T. “The effects of magnesium physiological supplementation on hyperactivity in children with attention deficit hyperactivity disorder (ADHD). Positive response to magnesium oral loading test”. Magnes Res. 1997 Jun;10(2):149-56.

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28) Wallis C. “Hyper kids? Check their diet. Research confirms a long-suspected link between hyperactivity and food additives”. Time. 2007 Sep 24;170(13):68.

29) McCann D, Barrett A, Cooper A, Crumpler D, Dalen L, Grimshaw K, Kitchin E, Lok K, Porteous L, Prince E, Sonuga-Barke E, Warner JO, Stevenson J. “Food additives and hyperactive behaviour in 3-year-old and 8/9-year-old children in the community: a randomised, double-blinded, placebo-controlled trial”. Lancet. 2007 Nov 3;370(9598):1560-7. Erratum in: Lancet. 2007 Nov 3;370(9598):1542.

30) Bellanti JA, Sabra A, Castro HJ, Chavez JR, Malka-Rais J, de Inocencio JM. “Are attention deficit hyperactivity disorder and chronic fatigue syndrome allergy related? what is fibromyalgia?” Allergy Asthma Proc. 2005 Jan-Feb;26(1):19-28

31) O´Reilly B,. “Hyperactive children´s support group conference, London, June 2001.

32) Theil, RJ. “Nutrition Based interventions for ADD and ADHD”. Townsend letter for Doctors & patients, april 2000, pp. 93-5

33) Carter CM, Urbanowicz M, Hemsley R, Mantilla L, Strobel S, Graham PJ, Taylor E. “Effects of a few food diet in attention deficit disorder .” Arch Dis Child. 1993 Nov;69(5):564-8.

 

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